quarta-feira, 29 de abril de 2015

Conclusão do Capítulo 4 - Alguns recém-desencarnados do livro Ação e reação
                                                                                                                   
1. - Ao produzir-se a desencarnação, cada um de nós penetra na espiritualidade portando a sua bagagem ganhada na sua existência carnal. Muitos poderão ser assistidos pelos anjos das claridades, mas outros ficarão na espera de melhor oportunidade. Quais as condições elementares para ter oportunidade para a ajuda?
R - Pela leitura deste capítulo, vimos que os espíritos que foram assistidos eram "credores de imediata assistência, de vez que não se achavam em desesperação, nem se haviam comprometido de todo com as forças dominantes nas trevas."  Conforme lembrado durante o estudo, o próprio André Luiz relata nos primeiros capítulos do livro "Nosso Lar", que durante mais ou menos oito anos permaneceu nas regiões de sofrimento, acossado por espíritos inferiores que não lhe deixavam ter paz. Somente  quando elevou seu pensamento  a Deus e, em consequência, o seu padrão vibratório, rogando a ajuda do Alto, é que conseguiu perceber a presença de Clarêncio, o benfeitor que buscava, sem êxito, ajudá-lo. Seu psiquismo ainda se encontrava em grande estado de perturbação, o que o sintonizava com a região habitada por espíritos igualmente perturbados e sofredores. Podemos concluir que é necessário conquistar o merecimento ao socorro, através de uma vivência no mundo físico compatível com as leis divinas e, quando no mundo espiritual, manter-se receptivo à ajuda.

 2. - As emoções dos momentos derradeiros da alma sob a terra lhe imprimem imagens que rivalizam com a realidade. É possível para todos, despertarem para a verdade, no mundo espiritual, sem delonga?
As consequências de uma desencarnação dependem, principalmente, da maneira como o espírito viveu durante a passagem pelo mundo físico. Conforme ensinam os Espíritos, somente aqueles que já se encontram em seu estado definitivo deixam de sofrer perturbação espiritual após a desencarnação. Estes - e o único que conhecemos nesta condição é Jesus - como não mais a  influência da matéria, têm imediata consciência de que deixaram o corpo. Nós outros, ainda em processo de evolução e sob forte impressão da matéria, não temos como fugir de um período de perturbação, que pode ser mais ou menos longo, dependendo do grau de evolução que o espírito já tenha alcançado. Uns compreendem logo a sua nova situação e vão para as regiões do mundo espiritual onde se reúnem aqueles que lhe são afins; outros ficam mesmo vagando pelo espaço, sem sequer perceberem que desencarnaram. O despertamento para a realidade, portanto, varia de espírito para espírito, conforme o seu estado evolutivo.

3. -Quando na Terra, todos sonhamos em paraísos celestiais para os nossos futuros, tendo a seguridade em nossa reta conduta. No entanto, o livro nos fala de choro e ranger de dentes. Como ter a certeza de que a nossa conduta é verdadeiramente reta?
A resposta se encontra na questão 625 do Livro dos Espíritos, em que Kardec pergunta: "Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo? Resposta: Jesus". Para termos a certeza de que a nossa conduta é verdadeiramente reta e de que estamos no caminho que nos levará a uma situação espiritual de felicidade, sem choro nem ranger de dentes, devemos seguir o guia e modelo que Deus tem nos oferecido, que é Jesus. Ninguém vai ao Pai senão por ele, como ele próprio nos ensinou. Devemos buscar seguir os seus ensinamentos e o seu exemplo, que estão contidos no seu Evangelho. O Evangelho é, assim, a luz que ilumina o nosso caminho e que nos ensina a não nos deixarmos desviar do rumo certo.

4. -  Os humanos fazemos uso de um idioma e de símbolos para nos comunicar entre nós. A mesma conduta sobrevive em nós no Além, formando o que alguns autores nomeiam como "clichês mentais". Que conclusões tiramos dos exemplos resultantes das experiências de nossos irmãos, inseridas no livro?
Como no caso narrado no capítulo anterior, do desencarnado que assassinara seus irmãos para se apropriar de uma herança, o caso da mulher que abandonara à própria sorte sua genitora, constante no presente capítulo, mostra o peso carregado pelo pensamento, quando a consciência nos condena. Gera os chamados "clichês mentais", que são reflexos da natureza dos nossos pensamentos. Em ambos os casos, vemos o psiquismo desses espíritos cristalizado em torno de um determinado acontecimento do passado, isolando-se do mundo exterior. Passaram a vivenciar os acontecimentos em todos os instantes da nova existência, imobilizando-se em torno deles e passando por profundo desequilíbrio e desarmonia interior.
Segundo o instrutor Áulus, no livro "Nos Domínios da Mediunidade", também de André Luiz, quando isto ocorre, "não se interessando por outro assunto a não ser o da própria dor, da própria ociosidade ou do próprio ódio, a criatura desencarnada, ensimesmando-se, é semelhante ao animal no sono letárgico da hibernação. Isola-se do mundo externo, vibrando tão-somente ao redor do desequilíbrio oculto em que se compraz. Nada mais ouve, nada mais vê e nada mais sente, além da esfera desvairada de si mesma".

5. - Num momento de reflexão, o Instrutor nos diz: "Imaginemos agora o pensamento, força viva e atuante, cuja velocidade supera a da luz. Emitido por nós, volta inevitavelmente a nós mesmos, compelindo-nos a viver, de maneira espontânea, em sua onda de formas criadoras, que naturalmente se nos fixam no espírito quando alimentadas pelo combustível de nosso desejo ou de nossa atenção". A lógica é inegável. Podemos ampliar considerações levando em conta o lido no presente capítulo?
Estudamos em capítulos anteriores, que o pensamento se materializa e ganha o fluido cósmico universal, por meio do qual é levado por ondas magnéticas. Como disse o assistente Silas, é uma força viva e atuante, que volta inevitavelmente a nós. É a lei de causa e efeito, uma das leis cósmicas que regem o Universo e que é o tema principal deste livro. Somos resultados  não só de nossos atos como também de nossos pensamentos. Por isso é importante orar e vigiar, como recomendou Jesus, para que não venhamos a cair na tentação, o que nos trará consequências desagradáveis no futuro. É indispensável, assim, praticarmos pensamentos saudáveis, direcionados para o bem, para que eles retornem a nós de maneira positiva, favoráveis ao nosso progresso espiritual.

6. - Mais adiante, ele mesmo diz: "Daí, a necessidade imperiosa de nos situarmos nos ideais mais nobres e nos propósitos mais puros da vida, porque energias atraem energias da mesma natureza, e, quando estacionários na viciação ou na sombra, as forças mentais que exteriorizamos retornam ao nosso espírito, reanimadas e intensificadas pelos elementos que com elas se harmonizam, engrossando, dessa forma, as grades da prisão em que nos detemos irrefletidamente, convertendo-se-nos a alma num mundo fechado, em que as vozes e os quadros de nossos próprios pensamentos, acrescidos pelas sugestões daqueles que se ajustam ao nosso modo de ser, nos impõem reiteradas alucinações, anulando-nos, de modo temporário, os sentidos sutis". Ante a imensidade destes conceitos, quais as nossas conclusões?
Esta citação de Silas é uma confirmação da anterior, reafirmando que a sintonia vibratória em que nos situamos é definida pela natureza dos ideais para os quais direcionamos a nossa vida.


Ação e Reação - Capitulo 4 - Alguns recém-desencarnados
Atingíramos largo recinto construído à feição de um pátio interior de proporções corretas e amplas.
Tive a ideia de penetrar em enorme átrio, algo semelhante a certas estações ferroviárias terrestres, porque nas acomodações marginais, caprichosamente dispostas, se encontravam dezenas de entidades em franca expectativa.
A dizer verdade, não vi sinais de alegria completa em rosto algum.
Os grupos variados, alguns deles em discreto entendimento, dividiam-se entre a preocupação e a tristeza.
De passagem, podíamos ouvir diálogos diferentes.
Em círculo reduzido, registramos frases como estas:
- Acreditas possa ela, agora, devotar-se à mudança justa?
- Dificilmente. Centralizou-se, por muito tempo, no descontrole da própria vida.
Mais além, escutamos dos lábios de uma senhora que se dirigia a um rapaz de agoniado semblante:
- Meu filho, guarde serenidade. Segundo informações do Assistente Cláudio, seu pai não virá em condições de reconhecer-nos. Precisará muito tempo para retornar a si.
Em trânsito, não assinalava senão alguns retalhos de conversação como esses.
A certa altura, na praça em movimentação, Druso, generoso, confiou-nos aos cuidados de Silas, mencionando obrigações urgentes que lhe absorveriam a atenção.
Encontrar-nos-íamos no dia seguinte, informou.
A promessa gentil obrigou-me a considerar o aspecto do tempo.
Pela sombra reinante, não poderíamos saber se era dia, se era noite.
Por isso, o grande relógio, ali existente, com largo mostrador abrangendo as vinte e quatro horas, funcionou aos meus olhos como a bússola para o viajante, deixando-me perceber que estávamos em noite alta. (3)
Sons de campanas invisíveis cortavam agora o ar e, assinalando-nos a curiosidade, Silas esclareceu que a caravana-comboio penetraria no recinto em alguns minutos.
Aproveitei os momentos para indagações que julguei necessárias.
Que espécie de criaturas aguardávamos, ali? Recém-desencarnados em que condições? como se organizaria a caravana-comboio? vinha diariamente à instituição atendendo a horário certo?
O companheiro, que se dispusera a assistir-nos, informou que as entidades prestes a entrarem integravam uma equipe de dezenove pessoas, acompanhadas por dez servidores da casa, que lhes orientavam a excursão, tratando-se de recém-desencarnados em desequilíbrio mental, mas credores de imediata assistência, de vez que não se achavam em desesperação, nem se haviam comprometido de todo com as forças dominantes nas trevas.  Notificou, ainda, que a caravana se constituía de trabalhadores especializados, sob a chefia de um Atendente, e que viajavam com simplicidade, sem carros de estilo apenas conduzindo o material indispensável à locomoção no pesado ambiente das sombras, auxiliados por alguns cães inteligentes e prestimosos.
A Mansão contava com dois grupos dessa natureza.
Diariamente um deles atingia aquele domicílio de reajuste, revezando-se no piedoso mister socorrista.
Entretanto - aclarou -, não possuíam horário certo para a chegada, de vez que a peregrinação, pelos domínios das trevas, obedecia comumente a fatores circunstanciais.
Mal terminara o interlocutor e a expedição penetrava o enorme átrio.
Os cooperadores responsáveis estavam aparentemente calmos, evidenciando alguns, entretanto, no olhar, funda preocupação.
Os recolhidos, no entanto, exceção de cinco que vinham de maca, desmemoriados e dormentes, revelavam perturbações manifestas que, em alguns, se expressavam por loucura desagradável, se bem que pacífica.
Enquanto os enfermeiros se desvelavam em ajudá-los, carinhosos e atentos, e os cães se deitavam, extenuados, aqueles seres recém-chegados falavam e reclamavam, demonstrando absoluta ausência mental da realidade e provocando piedade e constrangimento.
Silas convidou-nos à movimentação.
Efetivamente, cabia-nos algo fazer na cooperação.
O chefe da caravana aproximou-se de nós e o Assistente no-lo apresentou num gesto amigo.
Era o Atendente Macedo, valoroso condutor de tarefas socorristas.
Afeiçoados e parentes dos recém-vindos cercavam-nos, agora, com expressões de alegria e sofrimento.
Algumas senhoras que vira, antes, em ansiosa expectativa, derramavam lágrimas discretas.
Notei que as criaturas recém-desligadas do corpo denso, conturbadas qual se achavam, traziam consigo todos os sinais das moléstias que lhes haviam imposto a desencarnação.
Ligeiro exame clínico poderia sem dúvida favorecera leitura da diagnose individual.
Dama simpática abeirara-se de uma jovem senhora que vinha amparada pela ternura de uma das enfermeiras da instituição, e, abraçando-a, chorava sem palavras.
A moça recém-liberta recebia-lhe os carinhos, rogando, comovente - Não me deixem morrer!... não me deixem morrer!...
Mostrando-se enclausurada na lembrança dos momentos derradeiros no corpo terrestre, de olhos torturados e lacrimosos, avançou para Silas, exclamando:
- Padre! padre, deixa cair sobre mim a bênção da extrema-unção; contudo, afasta de minhalma a foice da morte!... Tentei apagar minha falta na fonte da caridade para com os desprotegidos da sorte, mas a ingratidão, praticada com minha mãe, fala muito alto em minha consciência infeliz!... Ah! por que o orgulho me encegueceu, assim tanto, a ponto de condená-la à miséria?!... Por que não possuía eu, há vinte anos, a compreensão que tenho agora? Pobrezinha, meu padre!  Lembra-se dela? Era uma atriz humilde que me criou com imensa doçura!... Concentrou em mim a existência... Da ribalta festiva, desceu a rude labor doméstico para conquistar nosso pão... Tinha a sociedade contra ela, e meu pai, sem ânimo de lutar pela felicidade de todas nós, deixou-a arrastar-se na extrema pobreza, acovardado e infiel aos compromissos que livremente assumira...
A infortunada criatura fez ligeiro interregno, misturando as próprias lágrimas com as da nobre matrona que a conchegava de encontro ao peito e, de mente aprisionada à confissão que fizera "In extremis", continuou qual se tivesse o sacerdote ao pé de si:
- Padre, perdoe-me, em nome de Jesus, entretanto, quando me vi jovem e senhora do vultoso dote que meu pai me conferira, envergonhei-me do anjo maternal que sobre os meus dias estendera as brancas asas e, aliando-me ao homem vaidoso que desposei expulsei-a de nossa casa!... Oh! ainda sinto o frio daquela terrível noite de adeus!...
Atirei-lhe ao rosto frases cruéis...  Para justificar minha vileza de coração, caluniei-a sem piedade!... Pretendendo elevar-me no conceito do homem que desposara, menti que ela não era minha mãe!  apontei-a como ladra comum que me roubara ao nascer!... 
Lembro-me do olhar de dor e compaixão que me lançou ao despedir-se... Não se queixou, nem reagiu...
Apenas contemplou-me, tristemente, com os olhos túrgidos de chorar!...
Nessa altura, a dama que a sustentava afagou-lhe os cabelos em desalinho e buscou reconfortá-la:
- Não se excite. Descanse... descanse...
- Ah! que voz é esta? bradou a desvairar-se de angústia.
E, tateando as mãos afetuosas que lhe acariciavam as faces, exclamou, sem vê-las:
- Oh! padre, dir-se-ia que ela se encontra aqui, junto de mim!...
E, voltando para o alto os olhos apagados e súplices, rogava em pranto:
- Ô Deus, não me deixeis encontrá-la, sem que pague os meus débitos!...
Senhor, compadecei-vos de mim, pecadora que Vos ofendi, humilhando e ferindo a amorosa mãe que me destes!...
Com o auxílio de duas enfermeiras, porém, a simpática senhora que a acalentava situou-a em leito portátil e fê-la emudecer, à força de inexcedível ternura.
Percebendo-me a emotividade, Silas, depois de amparar o serviço de acomodação da doente, explicou:
- A dama generosa que a recolheu nos braços é a genitora que veio ao encontro da filha.
- Que nos diz?! - exclamou Hilário, assombrado.
- Sim, acompanhá-la-á, carinhosamente, sem identificar-se, para que a pobre desencarnada não sofra abalos prejudiciais. O traumatismo perispirítico vale por muito tempo de desequilíbrio e aflição.
- E por que motivo teria a doente decidido confessar-se, dessa maneira? - perguntou meu colega, intrigado.
- É fenômeno comum - elucidou o Assistente. As faculdades mentais de nossa irmã sofredora estagnaram-se no remorso, em razão do delito máximo de sua existência última, e, desde que foi mais intensamente tocada pelas reflexões da morte, entregou-se, de modo total, a semelhantes reminiscências. Por haver cultivado a fé católica romana, imagina-se ainda diante do sacerdote, acusando-se pela falta que lhe maculou a vida...
O espetáculo ferira-me, fundo.
A rudeza do quadro que a verdade me oferecia obrigava-me a dolorida meditação.
Não havia, então, males ocultos na Terra!...
Todos os crimes e todas as falhas da criatura humana se revelariam algum dia, em algum lugar!...
Silas entendeu a amargura de minhas reflexões e veio em meu socorro, observando:
- Sim, meu amigo, você repara com acerto. A Criação de Deus é gloriosa luz. Qualquer sombra de nossa consciência jaz impressa em nossa vida até que a mácula seja lavada por nós mesmos, com o suor do trabalho ou com o pranto da expiação...
E ante os apelos agoniados e afetivos nos reencontros a se processarem, ali, sob nossos olhos, em que filhos e pais, esposos e amigos se reaproximavam uns dos outros, o Assistente acrescentou:
- Geralmente a estas plagas de inquietação aportam aqueles que em si mesmos cavaram mais fundos sulcos infernais e que se cristalizaram em perigosas ilusões, mas a Bondade Infinita do Senhor permite que as vítimas edificadas no entendimento e no perdão se transformem, felizes, em abnegados cireneus dos antigos verdugos. Como é fácil verificar, o incomensurável amor de nosso Pai Celeste cobre, não somente os territórios glorificados do paraíso, mas também as províncias atormentadas do inferno que criamos...
Pobre mulher prorrompeu em choro convulso, junto de nós, cortando a palavra de nosso amigo.
De punhos cerrados, reclamava a infeliz:
- Quem me libertará de Satã? quem me livrará do poder das trevas? Santos anjos, socorrei-me! Socorrei-me contra o temível Belfegor!...
Silas convocou-nos ao amparo magnético imediato.
Enfermeiros presentes acorreram, solícitos, impedindo o agravamento da crise.
- Maldito! Maldito!... - repetia a demente, persignando-se.
Invocando o socorro divino, através da oração, procurei anular-lhe os movimentos desordenados, adormecendo-a pouco a pouco.
Asserenado o ambiente, convidou-nos Silas a sondar-lhe a mente conturbada, agora sob o império de profunda hipnose.
Busquei pesquisar-lhe a desarmonia em rápido processo de análise mental, e verifiquei, espantado, que a pobre amiga era portadora de pensamentos horripilantes.
Como que a se lhe enraizar no cérebro, via escapar-lhe do campo íntimo a figura animalesca de um homem agigantado, de longa cauda, com a fisionomia de um caprino degenerado, exibindo pés em forma de garras e ostentando dois chifres, sentado numa cadeira tosca, qual se vivesse em perfeita simbiose com a infortunada criatura, em mútua imanização.
Diante da minha pergunta silenciosa, o Assistente informou - É um clichê mental, criado e nutrido por ela mesma. As ideias macabras da magia aviltante, quais sejam as da bruxaria e do demonismo que as igrejas denominadas cristãs propagam, a pretexto de combatê-los, mantendo crendices e superstições, ao preço de conjurações e exorcismos, geram imagens como esta, a se difundirem nos cérebros fracos e desprevenidos, estabelecendo epidemias de pavor alucinatório. As Inteligências desencarnadas, entregues à perversão, valem-se desses quadros mal contornados que a literatura feiticista ou a pregação invigilante distribuem na Terra, a mancheias, e imprimem-lhes temporária vitalidade, assim como um artista do lápis se aproveita dos debuxos de uma criança, tomando-os por base dos desenhos seguros com que passa a impressionar o ânimo infantil.
O esclarecimento se me deparava como oportuna chave para a solução de muitos enigmas, no capítulo da obsessão, em que os doentes começam atormentando a si mesmos e acabam atormentados por seres que se afinam com o desequilíbrio que lhes é próprio.
Hilário, que observava atentamente o duelo íntimo entre a enferma prostrada e a forma-pensamento que se lhe superpunha à cabeça, falou comovido:
- Lembro-me de haver manuseado, há muitos anos, na Terra, um livro da autoria de Collin de Plancy, aprovado pelo arcebispo de Paris, trazendo a descrição minuciosa de diversos demônios, e creio haver visto uma figura gravada nessa obra, semelhante à que temos sob nossa direta observação.
Silas adiantou, confirmando:
- Isso mesmo. É o demônio Belfegor, segundo as anotações de Jean Weier, que imprevidentes autoridades da Igreja permitiram se espalhasse nos círculos católicos. 
Conhecemos o livro a que se refere. Tem criado empecilhos tremendos a milhares de criaturas que inadvertidamente acolhem tais símbolos de Satanás, oferecendo-os a Espíritos bestializados que os aproveitam para formar terríveis processos de fascinação e possessão.
Refletia quanto ao problema dos moldes mentais na vida de cada um de nós, quando o Assistente, certo me surpreendendo a indagação, acentuou bem-humorado:
- Aqui, é fácil reconhecer que cada coração edifica o inferno em que se aprisiona, de acordo com as próprias obras. Assim, temos conosco os diabos que desejamos, segundo o figurino escolhido ou modelado por nós mesmos.
O serviço assistencial, porém, exigia cautelosa atenção e, por isso, removemos a enferma para o aposento limpo e bem-posto que a esperava.
Decorridos alguns minutos, voltamos ao átrio, então descongestionado e silencioso.
Apenas algumas sentinelas da noite velavam, infatigáveis e atentas.
Os tormentos entrevistos compeliam-me a pensar.
Muito já estudara acerca de pensamento e fixação mental, todavia, a angústia daquelas almas recém-desencarnadas me infundia compaixão e quase terror.
Confiei ao amigo que nos acompanhava, bondoso, a indefinível tortura de que me via objeto e o Assistente esclareceu com sabedoria:
- Em verdade, estamos ainda longe de conhecer todo o poder criador e aglutinante encerrado no pensamento puro e simples, e, em razão disso, tudo devemos fazer por libertar os entes humanos de todas as expressões perturbadoras da vida íntima. Tudo o que nos escravize à ignorância e à miséria, à preguiça e ao egoísmo, à crueldade e ao crime é fortalecimento da treva contra a luz e do inferno contra o Céu.
E talvez porque desejasse ardentemente mais alguma anotação, em torno do transcendente assunto, Silas ajuntou:
- Recorda-se de haver lido alguma memória, alusiva às primeiras experiências de Marconi, nos albores do telégrafo sem fio?
- Sim - respondi -, lembro-me de que o sábio, ainda muito jovem, se consagrou ao estudo das observações de Henrique Hertz, o grande engenheiro alemão que realizou importantes experiências sobre as ondulações elétricas, comprovando as teorias da identidade da transmissão entre a eletricidade, a luz e o calor irradiante, e sei que, certa feita, tomando-lhe o oscilador e conjugando-o com a antena de Popoff e com o receptor de Branly, no jardim da casa paterna, conseguiu transmitir sem fio os sinais do alfabeto Morse. Mas... que tem isso a ver com o pensamento?
O Assistente sorriu e falou:
- A referência é significativa para as nossas considerações. Além dela, volvamos à televisão, uma das maravilhas da atualidade terrestre...
E acrescentou:
- Reporto-me ao assunto para lembrar que na radiofonia e na televisão os elétrons que carreiam as modulações da palavra e os elementos da imagem se deslocam no espaço com velocidade igual à da luz, ou seja, a trezentos mil quilômetros por segundo. Ora, num só local podem funcionar um posto de emissão e outro de recepção, compreendendo-se que, num segundo, as palavras e as imagens podem ser irradiadas e  captadas, simultaneamente, depois de atravessarem imensos domínios do espaço, em fração infinitesimal de tempo. Imaginemos agora o pensamento, força viva e atuante, cuja velocidade supera a da luz. Emitido por nós, volta inevitavelmente a nós mesmos, compelindo-nos a viver, de maneira espontânea, em sua onda de formas criadoras, que naturalmente se nos fixam no espírito quando alimentadas pelo combustível  de nosso desejo ou de nossa atenção. Daí, a necessidade imperiosa de nos situarmos nos ideais mais nobres e nos propósitos mais puros da vida, porque energias atraem energias da mesma natureza, e, quando estacionários na viciação ou na sombra, as forças mentais que exteriorizamos retornam ao nosso espírito, reanimadas e intensificadas pelos elementos que com elas se harmonizam, engrossando, dessa forma, as grades da prisão em que nos detemos irrefletidamente, convertendo-se-nos a alma num mundo  fechado, em que as vozes e os quadros de nossos próprios pensamentos, acrescidos pelas sugestões daqueles que se ajustam ao nosso modo de ser, nos impõem reiteradas alucinações, anulando-nos, de modo temporário, os sentidos sutis.
E, depois de ligeira pausa, concluiu:
- Eis por que, efetuada a supressão do corpo somático, no fenômeno vulgar da morte, a criatura desencarnada, movimentando-se num veículo mais plástico e influenciável, pode permanecer longo tempo sob o cativeiro de suas criações menos construtivas, detendo-se em largas faixas de sofrimento e ilusão com aqueles que lhe vivem os mesmos enganos e pesadelos.  A explicação não podia ser mais clara.
Calamo-nos, Hilário e eu, dominados por igual sentimento de respeito e reflexão.
Silas percebeu-nos a atitude interior e generosamente convidou-nos ao descanso em que, por algumas horas, conseguiríamos repousar e... pensar.
(3) Reportamo-nos a regiões encravadas nos domínios do próprio  globo terrestre, submetidas às mesmas leis que lhe regulam o tempo. - (Nota da Autor espiritual.)

Questões para o Estudo
1 _ Ao produzir-se a desencarnação, cada um de nós penetra na espiritualidade portando o seu bagagem ganhado na sua existência carnal. Muitos poderão ser assistidos pelos anjos das claridades, mas outros ficaram na espera de melhor oportunidade. Quais as condições elementais para ter oportunidade para a ajuda?

 2 _ As emoções dos momentos derradeiros da alma sob a terra, lhe imprime imagens que rivalizam com a realidade. É possível para todos, despertarem para a verdade, no mundo espiritual, sem delonga?

 3 _ Quando na Terra, todos sonhamos em paraísos celestiais para os nossos futuros, tendo a seguridade em nossa  reta conduta. No entanto o livro nos fala de choro e ranger de dentes. Como ter a certeza de que a nossa conduta é verdadeiramente reta?

4 _ Os humanos fazemos uso de um idioma e de símbolos para nos comunicar entre nós. A mesma conduta sobrevive em nós no Além formando o que alguns autores nomeiam como _clichê mentais_. Que conclusões tiramos dos exemplos resultantes das experiências de nossos irmãos, inseridas no livro?

5 _ Num momento de reflexão, o Instrutor nos diz: -Imaginemos agora o pensamento, força viva e atuante, cuja velocidade supera a da luz. Emitido por nós, volta inevitavelmente a nós mesmos, compelindo-nos a viver, de maneira espontânea, em sua onda de formas criadoras, que naturalmente se nos fixam no espírito quando alimentadas pelo combustível de nosso desejo ou de nossa atenção._ A lógica é inegável. Podemos ampliar considerações levando em conta o lido no presente capítulo?


6 - Mais adiante, ele mesmo diz: -_Daí, a necessidade imperiosa de nos situarmos nos ideais mais nobres e nos propósitos mais puros da vida, porque energias atraem energias da mesma natureza, e, quando estacionários na viciação ou na sombra, as forças mentais que exteriorizamos retornam ao nosso espírito, reanimadas e intensificadas pelos elementos que com elas se harmonizam, engrossando, dessa forma, as grades da prisão em que nos detemos irrefletidamente, convertendo-se-nos a alma num mundo fechado, em que as vozes e os quadros de nossos próprios pensamentos, acrescidos pelas sugestões daqueles que se ajustam ao nosso modo de ser, nos impõem reiteradas alucinações, anulando-nos, de modo temporário, os sentidos sutis.- Ante a imensidade destes conceitos, quais as nossas conclusões?
Conclusão do Capítulo 3 - A intervenção na memória do livro Ação e reação

1 - Por que estes espíritos tratados neste mesmo local não participam do processo de reencarnação nas esferas                                          menos densas?
 O processo reencarnatório não é conduzido de uma mesma maneira para todos. Cada caso é um caso e tem a sua particularidade. Nas esferas menos densas, os espíritos, mais adiantados em evolução do que aqueles que se encontravam internados na Mansão Paz, já estão em condições, por exemplo, de escolherem suas provas. Suas situações espirituais lhes permitem o uso do livre-arbítrio mais amplamente. Participam mais ativamente do processo reencarnatório. No caso dos internos na Mansão Paz, são espíritos que se encontram em situação espiritual ainda bastante desfavorável, portando graves perturbações psíquicas e sem condições de utilizarem inteiramente o seu livre-arbítrio. A reencarnação destes espíritos ainda demanda uma maior assistência dos Espíritos Superiores e se operam dentro de um automatismo que a difere das reencarnações nas esferas menos densas.

2 - Estes espíritos em tratamento estão ligados à instituição lá existente ou estão ligados na esfera infernal?
Entendemos que as duas hipóteses se aplicam ao caso. O Espiritismo nos ensina que "céu" e "inferno" são estados de consciência a que os espíritos são levados por seu psiquismo. A Mansão Paz abriga espíritos ainda em grandes dificuldades, condenados por suas consciências pelos equívocos praticados, como o que se apresentava com aparência disforme e em decúbito dorsal. Portanto, podemos considerar que a Mansão Paz se situa em esfera infernal, pois esta é a situação dos espíritos que lá se encontram, embora estejam em condições melhores do que, por exemplo, os que promoveram o ataque à Instituição, descrito por André Luiz.

3 - Estas reencarnações ligadas a esta esfera são provisórias, no sentido dos espíritos terem condições de subir a esferas superiores? Até que ponto isso ocorre?
Como disse o assistente Silas, "o inferno para a alma que o erigiu em si mesma é aquilo que a forja constitui para o     metal: ali ele se apura e se modela convenientemente...". Assim, as reencarnações ligadas a essas esferas infernais são consequências do momento evolutivo dos espíritos que as frequentam e funcionam como um vaso purificador. O objetivo é sempre a evolução e o espírito somente se livra delas quando consegue se libertar das ações e pensamentos contrários às
Leis Naturais, que tem no amor a sua expressão máxima. Como ensinou Jesus: "tudo o que quiserdes que os homens vos façam, fazei-lho também a eles; porque esta é a lei e os profetas".

4 - Como estes trevosos conseguem tantas armas sofisticadas para atacar a instituição?
Podemos resumir com o texto trazido durante o estudo, de autoria de Luiz Gonzaga Peixoto, que explica: "a criação do ambiente espiritual com tudo quanto nele existe, é produto da criação mental dos Espíritos, que o fazem proporcionalmente a seu estado mental-moral-intelectual. O Espírito pode mentalizar uma flor e materializá-la no ambiente. Mas, pode ser que esta seja apenas uma forma, sem a estrutura molecular e celular típica de uma flor. Apresente perfume, colorido e outros detalhes, mas, examinada por um técnico, este poderá constatar a ausência de elementos celulares funcionais, a inexistência dos gametas reprodutores e, mesmo existindo tais estruturas, a disposição genética, a informação que deveria constar em  cada gene, não se apresenta."  Como todas as coisas que existem no mundo espiritual, as armas utilizadas por aqueles espíritos agressores são produto de ideoplastia. Recomendamos, a respeito do tema, o estudo do capítulo VIII do Livro dos Médiuns, intitulado "Do laboratório do mundo invisível".

5 - Por que os benfeitores ali os deixam soltos para assim atacarem constantemente a instituição?
No mundo espiritual, os espíritos se reúnem por força da lei de afinidade, que, através de um magnetismo, os atrai entre si e os agrupa em determinadas regiões do espaço. Os espíritos que habitam as regiões conhecidas como "trevas" não se encontram ainda em condições de serem atendidos e tratados pelos benfeitores espirituais, face às graves perturbações psíquicas de que ainda são portadores. Por esse motivo, permanecem pelo espaço praticando a única atividade com a qual seus psiquismos permitem uma identificação: o mal. Quando seus psiquismos o permitirem, certamente, serão acolhidos pelas equipes de socorro e levados a alguma instituição de tratamento das muitas que existe no mundo espiritual.

6 - No caso do assassino dos irmãos, o sentimento de culpa é bom ou ruim para a sua recuperação?
O arrependimento é o primeiro passo para a reabilitação diante de um erro cometido. O sentimento de culpa já é uma consequência do arrependimento e, dessa maneira, um fator positivo para a recuperação daquele que cometeu o equívoco.
É preciso cuidado, porém, para que este sentimento não se cristalize e o imobilize, tornando-se causador de processos depressivos ou de psicoses graves que impediriam os passos seguintes, necessários à reabilitação do faltoso. O sentimento de culpa e o arrependimento são importantes para o despertamento do espírito, pois lhe abrem o caminho da reabilitação.
Mas não devemos permitir que eles nos acompanhem durante os passos seguintes.

7 - O não conhecimento da vida após a morte contribui para que as pessoas cometam erros?
Sem dúvida, o desconhecimento da vida futura ou o conhecimento distorcido ensinado pelas religiões levam o homem à somente valorizar o que é ligado à vida física. O desconhecimento leva ao materialismo e, consequentemente, a fazê-lo pensar que tudo pode para satisfazer às necessidades da matéria; a visão equivocada da vida futura leva-o a imaginar que um arrependimento manifestado no momento da morte ou as preces pagas que lhe são dedicadas podem tudo apagar e conduzi-lo  a uma vida contemplativa, em ambientes celestiais. Somente o conhecimento da nossa realidade existencial, como espíritos imortais e da continuação da vida após a morte, como consequência da vida que levamos no mundo material, pode servir como fator inibidor de práticas contrárias à Lei Maior. Sabedor de que é regido por uma lei de causa e efeito que definirá sua situação após a morte física, o homem, certamente, procurará evitar cometer equívocos que comprometerão sua felicidade futura.


Ação e Reação - Capítulo 3 - A intervenção na memória
(...)
De inesperado, outro colaborador veio até nós e pediu:
- Instrutor, rogo-lhe providências na solução do caso Jonas. Recolhemos agora um recado de nossos irmãos, cientificando-nos de que a reencarnação dele talvez seja frustrada em definitivo.
Pela primeira vez, notei que o dirigente da Mansão mostrou intensa preocupação no olhar. Patenteando enorme surpresa, indagou do emissário:
- Em que consiste o obstáculo?
- Cecina, a futura mãezinha, sentindo-lhe os fluidos grosseiros, nega-se a recebê-lo.
Estamos presenciando a quarta tentativa de aborto, no terceiro mês de gestação, e vimos fazendo o que é possível por mantê-la na dignidade maternal.
Druso esboçou no semblante um sinal de serena firmeza e acentuou:
- É inútil. A jovem mãe aceitá-lo-á, segundo os compromissos dela própria. Além disso, precisamos da internação de Jonas, no corpo físico, pelo menos durante sete anos terrestres. Tragam Cecina até aqui, ainda hoje, logo se entregue ao sono natural, para que possamos auxiliá-la com a necessária intervenção magnética.
Outros elementos de serviço vinham chegando e, faminto de esclarecimentos, qual me achava, procurei um recanto próximo, em companhia do Assistente Silas, a quem crivei de indagações em tom discreto, de modo a não perturbar o recinto.
(...)
- E aquele caso de reencarnação pendente? - ousei perguntar, respeitoso.
- A casa podia opinar com segurança na solução de semelhante assunto?
O interpelado sorriu, benevolente, e respondeu:
- Para que me faça compreendido, convém esclarecer que, se existem reencarnações ligadas aos planos superiores, temos aquelas que se enraízam diretamente nos planos inferiores. Se a penitenciária vigora entre os homens, em função da criminalidade corrente no mundo, o inferno existe, na Espiritualidade, em função da culpa nas consciências. E assim como já podemos contar na esfera carnal com uma justiça sinceramente interessada em auxiliar os delinqüentes na recuperação, através do livramento condicional e das prisões-escolas, organizadas pelas próprias autoridades que dirigem os tribunais humanos em nome das leis, aqui também os representantes do Amor Divino podem mobilizar recursos de misericórdia, beneficiando
Espíritos devedores, desde que se mostrem dignos do socorro que lhes abrevie o resgate e a regeneração.
- Quer dizer - exclamei - que, em boa lógica terrena, e utilizando-me de uma linguagem de que usaria um homem na experiência física, há reencarnações em perfeita conexão com os planos infernais...
- Sim. Como não? Valem como preciosas oportunidades de libertação dos círculos tenebrosos. E como tais renascimentos na carne não possuem senão característicos de trabalho expiatório, em muitas ocasiões são empreendimentos planejados e executados daqui mesmo, por benfeitores credenciados para agir e ajudar em nome do Senhor.
(...)
- Instrutor, depois de amainada a tormenta, voltou o assalto dos raios desintegrantes...
O orientador esboçou um gesto de preocupação e recomendou:
- Liguem as baterias de exaustão. Observaremos a defensiva, instalados na Agulha de Vigilância.
Em seguida, convidou-nos a acompanhá-lo.
Silas, Hilário e eu seguimo-lo sem hesitar.
Atravessamos vastíssimos corredores e largos salões, em sentido ascendente, até que começamos a subir de maneira direta.
O local conhecido por Agulha de Vigilância era uma torre, provida de escadaria helicoidal, algumas dezenas de metros acima do grande e complicado edifício.
No topo, descansamos em pequeno gabinete, em cujo recinto interessantes aparelhos nos facultaram a contemplação da paisagem exterior.
Assemelhavam-se a telescópios diminutos, que funcionavam como lançadores de raios que eliminavam o nevoeiro, permitindo-nos exata noção do ambiente constrangedor que nos cercava, povoado de criaturas  agressivas e exóticas, que fugiam, espavoridas, ante vasto grupo de entidades que manobravam curiosas máquinas à guisa de canhonetes.
- Estaremos assediados por um exército atacante?
- perguntei, intrigado.
- Isso mesmo - confirmou Druso, calmamente -, esses ataques, porém, são comuns. Com semelhante invasão, pretendem nossos irmãos infelizes deslocar nossa casa e levar-nos à inércia, a fim de senhorearem a região.
- E aquelas equipagens? que vêm a ser? - enunciou meu companheiro, assombrado.
- Podemos defini-las como canhões de bombardeio eletrônico - informou o orientador. - As descargas sobre nós são cuidadosamente estudadas, a fim de que nos atinjam sem erro na velocidade de arremesso.
- E se nos alcançassem? - perguntou meu colega.
- Decerto provocariam aqui fenômenos de desintegração, suscetíveis de conduzir-nos à ruína total, sem nos referirmos às perturbações que estabeleceriam em nossos irmãos doentes, ainda incapazes de qualquer esforço para a emigração, porque os raios desfechados contra nós contêm princípios de flagelação, que provocam as piores crises de pavor e loucura.
Não longe de nós, ruído soturno vibrava na atmosfera.
Tínhamos a impressão de que milhares de projéteis invisíveis cortavam o ar, violentamente, sibilando a reduzida distância e acabando em estalidos secos, a nos infundirem pavorosa impressão.
Talvez porque Hilário e eu demonstrássemos insofreável espanto, Druso ponderou, paternal:
- Estejamos tranquilos. Nossas barreiras de exaustão funcionam com eficiência.
E designou-nos ao olhar assustadiço longa muralha, constituída por milhares de hastes metálicas, cercando a cidadela em toda a extensão, qual se fosse larga série de para-raios habilmente dispostos.
(...)
- Os conflitos aqui são incessantes - disse-nos o orientador com dignidade serena -; no entanto, temos aprendido nesta Mansão que a paz não é conquista da inércia, mas sim fruto do equilíbrio entre a fé no Poder Divino e a confiança em nós mesmos, no serviço pela vitória do bem.
Nesse instante, porém, um servidor da casa penetrou no recinto e disse:
- Instrutor Druso, conforme as recomendações havidas, o doente recolhido na noite passada foi instalado no gabinete de socorro magnético, aguardando-lhe a intervenção.
(...)
O mentor infatigável convidou-nos a segui-lo, explicando que a operação em perspectiva poderia oferecer importantes elementos de estudo ao trabalho que nos propúnhamos realizar.
(...)
Para referir-nos com franqueza à criatura sob nossos olhos, cabe-nos afirmar que o aspecto do infeliz chegava a ser repelente, apesar dos cuidados de que já fora objeto.
Parecia sofrer inqualificável hipertrofia, mostrando braços e pernas enormes. Entretanto, onde o aumento volumétrico do instrumento perispirítico se fazia mais desagradável era justamente na máscara fisionômica, em que todos os traços se confundiam, qual se estivéssemos à frente de uma esfera estranha, à guisa de cabeça.
(...)
Fitei o irmão desventurado que se mantinha em funda prostração, qual enfermo em estado de coma, e, considerando os imperativos de nosso aprendizado, indaguei:
- Poderemos conhecer a razão da surpreendente deformidade sob nosso exame?
O orientador percebeu a essência construtiva de minha perquirição e respondeu:
- O fenômeno, todo ele, é de natureza espiritual.
Recorda-se você de que a dor no veículo físico é um acontecimento real no encéfalo, mas puramente imaginário no órgão que supõe experimentá-la. A mente, através das células cerebrais, registra a desarmonia corpórea, constrangendo a urdidura orgânica ao serviço, por vezes torturado e difícil, do reajuste. Aqui, também, o aspecto anormal, até monstruoso, resulta dos desequilíbrios dominantes na mente que, viciada por certas impressões ou vulcanizada pelo sofrimento, perde temporariamente o governo da forma, permitindo que os delicados tecidos do corpo perispirítico se perturbem, tumultuados, em condições anormais. Em tal situação, a alma pode cair sob o cativeiro de Inteligências perversas e daí procedem as ocorrências deploráveis pelas quais se despenha em transitória animalização por efeito hipnótico.
(...)
Logo após, o Assistente, Hilário e eu, de maneira instintiva, estabelecemos uma corrente de oração, sem prévia consulta, e nossas forças reunidas como que fortaleciam o Instrutor, que, demonstrando fisionomia  calma e otimista, passou a operar, magneticamente, aplicando passes dispersivos no companheiro em prostração.
O enfermo reagiu, com movimentação gradativa, qual se acordasse de longo sono.
(...)
Depois de nova intervenção do mentor sobre a glote, o infeliz descerrou as pálpebras e, mostrando os olhos esgazeados, começou a bramir:
- Socorro! socorro!... sou culpado, culpado!...
Não posso mais... Perdão! perdão!
Dirigindo-se a Druso, e tomando-o decerto por magistrado, exclamou:
- Senhor juiz, senhor juiz!... até que enfim, posso falar! Deixem-me falar!...
O dirigente da Mansão afagou-lhe a cabeça atormentada e replicou em tom amigo:
- Diga, diga o que deseja.
O rosto do asilado cobriu-se de lágrimas, entremostrando a superexcitação dos sonâmbulos que transformam a própria fraqueza em energia inesperada, e começou a falar, compungidamente:
- Sou Antônio Olímpio... o criminoso!... Contarei tudo. Em verdade, pequei, pequei... por isso é justo... que eu sofra no inferno... O fogo tortura minhalma sem consumi-la... E o remorso, bem sei...  Se eu soubesse, não teria... cometido a falta...  entretanto, não pude resistir à ambição...
Depois da morte de meu pai... vi-me obrigado... a partilhar nossa grande fazenda com meus dois irmãos mais novos...  Clarindo e Leonel... Trazia, porém, a cabeça... dominada de planos...
Pretendia converter a propriedade...  que eu administrava... em larga fonte de renda, contudo... a partilha me estorvava... Notei que os manos... tinham ideias diferentes das minhas... e comecei a maquinar o projeto que acabei... executando...
Uma crise de soluços embargou-lhe a voz, mas Druso, amparando-o magneticamente, insistiu:
- Continue, continue...
- Admiti - continuou o enfermo com acento mais firme - que somente poderia ser feliz, aniquilando meus irmãos e... quando o inventário estava prestes a decidir-se, convidei-os a passear comigo... de barco...  inspecionando grande lago de nosso sítio... Antes, porém, dei-lhes a beber um licor entorpecente... Calculei o tempo que a droga reclamaria para um efeito seguro e... quando a nossa conversação ia acesa... percebendo-lhes os sinais de fadiga... num gesto deliberado desequilibrei a embarcação, em conhecido trecho... onde as águas eram mais fundas... Ah! que calamidade inesquecível!... Ainda agora, escuto-lhes os brados arrepiantes de horror, implorando socorro... mas... de nervos dormentes... a breves minutos... encontraram a morte...
Nadei de consciência pesada, mas firme em meus aloucados propósitos... abordando a praia e clamando por auxílio... Com atitudes estudadas, pintei um imaginário acidente...
Foi assim que me apossei da fazenda inteira, legando-a, mais tarde, a Luis... o meu filho único... Fui um homem rico e tido por honesto...  O dinheiro granjeou-me considerações sociais e privilégios públicos que a política distribui com todos aqueles que se fazem vencedores no mundo... pela sagacidade e pela inteligência... De quando em quando... recordava meu crime... nuvem constante a sombrear-me a consciência... mas... em companhia de Alzira... a esposa inolvidável... procurava distrações e passeios que me tomassem a atenção... Nunca pude ser feliz...  Quando meu filho se fez jovem... minha mulher adoeceu gravemente... e da febre que a devorou por muitas semanas... passou à loucura... com a qual se afogou no lago... numa noite de horror. Viúvo... perguntava a mim mesmo se não estava sendo joguete... do fantasma de minhas vítimas... entretanto... temia todas as referências em torno da morte... e busquei simplesmente gozar a fortuna que era bem minha...
O infeliz entregou-se a larga pausa de repouso, diante de nossa expectativa, continuando, logo após:
- Ai de mim, porém!... Tão logo cerrei os olhos físicos... diante do sepulcro... não me valeram as preces pagas... porque meus irmãos que eu supunha mortos... se fizeram visíveis à minha frente... Transformados em vingadores, ladearam-me o túmulo...
Atiraram-me o crime em rosto... cobriram-me de impropérios e flagelaram-me sem compaixão... até que... talvez...  cansados de me espancarem... conduziram-me a tenebrosa furna... onde fui reduzido ao pesadelo em que me encontro... Em meu pensamento... vejo apenas o barco no crepúsculo sinistro... ouvindo os brados de minhas vítimas... que soluçam e gargalham estranhamente .  . . Ai de mim! . . . estou  preso à terrível embarcação...  sem que me possa desvencilhar... Quem me fará dormir ou morrer?...  Como se o término da confissão lhe trouxesse algum descanso, arrojou-se o doente a enorme apatia.
Druso enxugou-lhe o pranto, dirigiu-lhe palavras de consolo e carinho e recomendou ao Assistente recolhê-lo à enfermaria especializada e, em seguida, falou-nos, pensativo:
- Já sabemos o necessário para estabelecer um ponto de partida na tarefa assistencial.

Questões para estudo:
1 _ Porque estes espíritos tratados neste mesmo local não participam do processo de reencarnação nas esferas menos densas?

2 _ Estes espíritos em tratamento estão ligados a instituição lá existente ou estão ligados na esfera infernal?

3 _ Estas reencarnações ligadas a esta esfera são provisórias no sentido dos espíritos terem condições de subir a esferas superiores? Até que ponto isso ocorre?

4 _ Como estes trevosos conseguem tantas armas sofisticadas para atacar a instituição?

5 _ Porque os benfeitores ali os deixam soltos para assim atacarem constantemente a instituição?

6 _ No caso do assassino dos irmãos, o sentimento de culpa é bom ou ruim para a sua recuperação?

7 _ O não conhecimento da vida após a morte contribui para que as pessoas cometam erros?


8 _ O que vocês acharam do capítulo? Contem o que mais gostaram e o que mais chamou a atenção de vocês.