terça-feira, 16 de setembro de 2014

A  LIÇÃO  DO  ESQUECIMENTO

Emmanuel

Não fosse o olvido temporário que assegura o refazimento da alma, na reencarnação, segundo a misericórdia do Senhor que lhe orienta a reta justiça, decerto teríamos no mundo, ao invés da escola redentora, a jaula escura e extensa, onde os homens se converteriam em feras a se digladiarem indefinidamente.
Não fosse o dom do esquecimento que envolve o berço terrestre, o ódio viveria eternizado transformando a Terra em purgatório angustioso e terrível, onde nada mais faríamos que chorar e lamentar, acusar e gemer.
A Divina Bondade, contudo, em cada romagem do espírito no campo do mundo, confere-lhe no corpo físico o arado novo suscetível de valorizar-lhe a replantação do destino, no rumo do porvir.
De existência a existência, o Senhor vela-nos caridosamente a memória, a fim de que saibamos metamorfosear espinhos em flores e aversões em laços divinos.
O Pai, no entanto, com semelhante medida, não somente nos ampara com a providencial anestesia das chagas anteriores, em favor do nosso êxito em novos compromissos.
Com essa dádiva, Ele que nos reforma o empréstimo do ensejo de trabalho, de experiência à experiência, nos induz à verdadeira fraternidade, para o esquecimento de nossas recíprocas, dia à dia.
Aprendamos a olvidar as úlceras e as cicatrizes, as deformidades e os defeitos do irmão de jornada, se nos propomos efetivamente a avançar para diante, em busca de renovadores caminhos.
Cada dia é como que a “reencarnação da oportunidade”, em que nos cabe aprender com o bem, redimindo o passado e elevando o presente, para que o nosso futuro não mais se obscureça.
Nas tarefas de redenção, mais vale esquecer que lembrar, a fim de que saibamos mentalizar com segurança e eficiência a sublimação pessoal que nos cabe atingir.
O Senhor nos avaliza os débitos, para que possamos adquirir os recursos destinados ao nosso próprio reajustamento à frente da Lei.
Recordemos o exemplo do Céu, destruindo os resíduos de sombra que, em forma de lamentação e de queixas, emergem ainda à tona de nossa personalidade, derramando-se em angústia e doença, através do pensamento e da palavra, da voz e da atitude.
Exaltemos o bem, dilatemo-lo e consagremo-lo nos menores
Gestos e em nossas mínimas tarefas, a cada instante da vida, e, somente assim, aprenderemos com o Senhor a olvidar a noite do pretérito, no rumo da alvorada que nos espera no fulgor do amanhã.

Do Livro: Família


Cap. V – Itens 14 a 17

O suicídio e a loucura
14. A calma e a resignação hauridas da maneira de considerar a vida terrestre e da confiança no futuro dão ao espírito uma serenidade que é o melhor preservativo contra a loucura e o suicídio. Com efeito, é certo que a maioria dos casos de loucura se deve à comoção produzida pelas vicissitudes que o homem não tem a coragem de suportar. Ora, se encarando as coisas deste mundo da maneira por que o Espiritismo faz que ele as considere, o homem recebe com indiferença, mesmo com alegria, os reveses e as decepções que o houveram desesperado noutras circunstâncias, evidente se torna que essa força, que o coloca acima dos acontecimentos, lhe preserva de abalos a razão, os quais, se não fora isso, a conturbariam.

15. O mesmo ocorre com o suicídio. Postos de lado os que se dão em estado de embriaguez e de loucura, aos quais se pode chamar de inconscientes, é incontestável que tem ele sempre por causa um descontentamento, quaisquer que sejam os motivos particulares que se lhe apontem. Ora, aquele que está certo de que só é desventurado por um dia e que melhores serão os dias que hão de vir, enche-se facilmente de paciência. Só se desespera quando nenhum termo divisa para os seus sofrimentos. E que é a vida humana, com relação à eternidade, senão bem menos que um dia? Mas, para o que não crê na eternidade e julga que com a vida tudo se acaba, se os infortúnios e as aflições o acabrunham unicamente na morte vê uma solução para as suas amarguras. Nada esperando, acha muito natural, muito lógico mesmo, abreviar pelo suicídio as suas misérias.

16. A incredulidade, a simples dúvida sobre o futuro, as ideias materialistas, numa palavra, são os maiores incitantes ao suicídio; ocasionam a covardia moral. Quando homens de ciência, apoiados na autoridade do seu saber, se esforçam por provar aos que os ouvem ou leem que estes nada têm a esperar depois da morte, não estão de fato levando-os a deduzir que, se são desgraçados, coisa melhor não lhes resta senão se matarem? Que lhes poderiam dizer para desviá-los dessa consequência? Que compensação lhes podem oferecer? Que esperança lhes podem dar? Nenhuma, a não ser o nada. Daí se deve concluir que, se o nada é o único remédio heroico, a única perspectiva, mais vale buscá-lo imediatamente e não mais tarde, para sofrer por menos tempo.
A propagação das doutrinas materialistas é, pois, o veneno que inocula a ideia do suicídio na maioria dos que se suicidam, e os que se constituem apóstolos de semelhantes doutrinas assumem tremenda responsabilidade. Com o Espiritismo, tornada impossível a dúvida, muda o aspecto da vida. O crente sabe que a existência se prolonga indefinidamente para lá do túmulo, mas em condições muito diversas; donde a paciência e a resignação que o afastam muito naturalmente de pensar no suicídio; donde, em suma, a coragem moral.

17. O Espiritismo ainda produz, sob esse aspecto, outro resultado igualmente positivo e talvez mais decisivo. Apresenta-nos os próprios suicidas a informar-nos da situação desgraçada em que se encontram e a provar que ninguém viola impunemente a lei de Deus, que proíbe ao homem encurtar a sua vida. Entre os suicidas, alguns há cujos sofrimentos, nem por serem temporários e não eternos, não são menos terríveis e de natureza a fazer refletir os que porventura pensam em daqui sair, antes que Deus o haja ordenado. O espírita tem, assim, vários motivos a contrapor à ideia do suicídio: a certeza de uma vida futura, em que, sabe-o ele, será tanto mais ditoso, quanto mais inditoso e resignado haja sido na Terra: a certeza de que, abreviando seus dias, chega, precisamente, a resultado oposto ao que esperava; que se liberta de um mal, para incorrer num mal pior, mais longo e mais terrível; que se engana, imaginando que, com o matar-se, vai mais depressa para o céu; que o suicídio é um obstáculo a que no outro mundo ele se reúna aos que foram objeto de suas afeições e aos quais esperava encontrar; donde a consequência de que o suicídio, só lhe trazendo decepções, é contrário aos seus próprios interesses. Por isso mesmo, considerável já é o número dos que têm sido, pelo Espiritismo, obstados de suicidar-se, podendo daí concluir-se que, quando todos os homens forem espíritas, deixará de haver suicídios conscientes. Comparando-se, então, os resultados que as doutrinas materialistas produzem com os que decorrem da Doutrina Espírita, somente do ponto de vista do suicídio, forçoso será reconhecer que, enquanto a lógica das primeiras a ele conduz, a da outra o evita, fato que a experiência confirma.

B - Questões para estudo e diálogo virtual:
1 – Qual é o melhor preservativo contra a loucura e o suicídio?


2 – Qual a contribuição da doutrina Espírita para se evitar o suicídio?


3 – Extraia do texto acima a frase ou parágrafo que mais gostou e justifique.

sábado, 13 de setembro de 2014

NO ESTUDO DA AFLIÇÃO

Emmanuel
Em toda a parte, vemos a aflição que se arroja ao crime;
que se confia à revolta;
que se rende ao desânimo;
que se desfaz em desespero;
que se transubstancia em ofensas aos semelhantes;
que alardeia intimidade com Jesus, ferindo os homens, nossos irmãos;
que, a pretexto de exercer a justiça, mobiliza tribunais e prisões;
que clama sem piedade contra a miséria dos outros;
que chora sem proveito;
que se demora nas apreciações infelizes;
que se mantém nas trevas, azorragando os que buscam a luz;
que se irrita;
que maltrata;
que vergasta e maldiz...
Entretanto, os bem aventurados do Evangelho são os aflitos que não provocam novas aflições.
São aqueles que aceitam a dor e nela acatam os Divinos Desígnios
Recebamos no espinho que nos lacera ou no flagelo que nos humilha, a lição que a Providência nos envia e teremos chegado à Celeste Compreensão, para guardar, em espírito e verdade, o tesouro do Amor que o Divino Mestre nos legou.

Do livro Reconforto


Cap. V – Itens 11 a 13
Esquecimento do passado

11. Em vão se objeta que o esquecimento constitui obstáculo a que se possa aproveitar da experiência de vidas anteriores. Havendo Deus entendido de lançar um véu sobre o passado, é que há nisso vantagem. Com efeito, a lembrança traria gravíssimos inconvenientes. Poderia, em certos casos, humilhar-nos singularmente, ou, então, exaltar-nos o orgulho e, assim, entravar o nosso livre-arbítrio. Em todas as circunstâncias, acarretaria inevitável perturbação nas relações sociais.
Frequentemente, o Espírito renasce no mesmo meio em que já viveu, estabelecendo de novo relações com as mesmas pessoas, a fim de reparar o mal que lhes haja feito. Se reconhecesse nelas as a quem odiara, quiçá o ódio se lhe despertaria outra vez no íntimo. De todo modo, ele se sentiria humilhado em presença daquelas a quem houvesse ofendido.
Para nos melhorarmos, outorgou-nos Deus, precisamente, o de que necessitamos e nos basta: a voz da consciência e as tendências instintivas. Priva-nos do que nos seria prejudicial.
Ao nascer, traz o homem consigo o que adquiriu, nasce qual se fez; em cada existência, tem um novo ponto de partida. Pouco lhe importa saber o que foi antes: se se vê punido, é que praticou o mal. Suas atuais tendências más indicam o que lhe resta a corrigir em si próprio e é nisso que deve concentrar-se toda a sua atenção, porquanto, daquilo de que se haja corrigido completamente, nenhum traço mais conservará. As boas resoluções que tomou são a voz da consciência, advertindo-o do que é bem e do que é mal e dando-lhe forças para resistir às tentações.
Aliás, o esquecimento ocorre apenas durante a vida corpórea. Volvendo à vida espiritual, readquire o Espírito a lembrança do passado; nada mais há, portanto, do que uma interrupção temporária, semelhante à que se dá na vida terrestre durante o sono, a qual não obsta a que, no dia seguinte, nos recordemos do que tenhamos feito na véspera e nos dias precedentes.
E não é somente após a morte que o Espírito recobra a lembrança dó passado. Pode dizer-se que jamais a perde, pois que, como a experiência o demonstra, mesmo encarnado, adormecido o corpo, ocasião em que goza de certa liberdade, o Espírito tem consciência de seus atos anteriores; sabe por que sofre e que sofre com justiça. A lembrança unicamente se apaga no curso da vida exterior, da vida de relação. Mas, na falta de uma recordação exata, que lhe poderia ser penosa e prejudicá-lo nas suas relações sociais, forças novas haure ele nesses instantes de emancipação da alma, se os sabe aproveitar.

Motivos de resignação

12. Por estas palavras: Bem-aventurados os aflitos, pois que serão consolados, Jesus aponta a compensação que hão de ter os que sofrem e a resignação que leva o padecente a bendizer do sofrimento, como prelúdio da cura.
Também podem essas palavras ser traduzidas assim: Deveis considerar-vos felizes por sofrerdes, visto que as dores deste mundo são o pagamento da dívida que as vossas passadas faltas vos fizeram contrair; suportadas pacientemente na Terra, essas dores vos poupam séculos de sofrimentos na vida futura. Deveis, pois, sentir-vos felizes por reduzir Deus a vossa dívida, permitindo que a saldeis agora, o que vos garantirá a tranquilidade no porvir.
O homem que sofre assemelha-se a um devedor de avultada soma, a quem o credor diz: "Se me pagares hoje mesmo a centésima parte do teu débito, quitar-te-ei do restante e ficarás livre; se o não fizeres, atormentar-te-ei, até que pagues a última parcela." Não se sentiria feliz o devedor por suportar toda espécie de privações para se libertar, pagando apenas a centésima parte do que deve? Em vez de se queixar do seu credor, não lhe ficará agradecido?
Tal o sentido das palavras: "Bem-aventurados os aflitos, pois que serão consolados." São ditosos, porque se quitam e porque, depois de se haverem quitado, estarão livres. Se, porém, o homem, ao quitar-se de um lado, endivida-se de outro, jamais poderá alcançar a sua libertação. Ora, cada nova falta aumenta a dívida, porquanto nenhuma há, qualquer que ela seja, que não acarrete forçosa e inevitavelmente uma punição. Se não for hoje, será amanhã; se não for na vida atual, será noutra. Entre essas faltas, cumpre se coloque na primeira fiada a carência de submissão à vontade de Deus. Logo, se murmurarmos nas aflições, se não as aceitarmos com resignação e como algo que devemos ter merecido, se acusarmos a Deus de ser injusto, nova dívida contraímos, que nos faz perder o fruto que devíamos colher do sofrimento. E por isso que teremos de recomeçar, absolutamente como se, a um credor que nos atormente, pagássemos uma cota e a tomássemos de novo por empréstimo.
Ao entrar no mundo dos Espíritos, o homem ainda está como o operário que comparece no dia do pagamento. A uns dirá o Senhor: "Aqui tens a paga dos teus dias de trabalho"; a outros, aos venturosos da Terra, aos que hajam vivido na ociosidade, que tiverem feito consistir a sua felicidade nas satisfações do amor-próprio e nos gozos mundanos: "Nada vos toca, pois que recebestes na Terra o vosso salário. Ide e recomeçai a tarefa."

13. O homem pode suavizar ou aumentar o amargor de suas provas, conforme o modo por que encare a vida terrena. Tanto mais sofre ele, quanto mais longa se lhe afigura a duração do sofrimento. Ora, aquele que a encara pelo prisma da vida espiritual apanha, num golpe de vista, a vida corpórea. Ele a vê como um ponto no infinito, compreende-lhe a curteza e reconhece que esse penoso momento terá presto passado. A certeza de um próximo futuro mais ditoso o sustenta e anima e, longe de se queixar, agradece ao Céu as dores que o fazem avançar. Contrariamente, para aquele que apenas vê a vida corpórea, interminável lhe parece esta, e a dor o oprime com todo o seu peso. Daquela maneira de considerar a vida, resulta ser diminuída a importância das coisas deste mundo, e sentir-se compelido o homem a moderar seus desejos, a contentar-se com a sua posição, sem invejar a dos outros, a receber atenuada a impressão dos reveses e das decepções que experimente. Dai tira ele uma calma e uma resignação tão úteis à saúde do corpo quanto à da alma, ao passo que, com a inveja, o ciúme e a ambição, voluntariamente se condena à tortura e aumenta as misérias e as angústias da sua curta existência..

Questões para estudo
1 – Cite inconvenientes da lembrança de experiências de vidas anteriores.
2 – Como pode o homem suavizar o amargor de suas provas?
3 – Extraia do texto acima a frase ou parágrafo que mais gostou e justifique.


terça-feira, 2 de setembro de 2014

Cap. V – Itens 1 a 5

1. Bem-aventurados os que choram, pois que serão consolados. - Bem-aventurados os famintos e os sequiosos de justiça, pois que serão saciados. - Bem-aventurados os que sofrem perseguição pela justiça, pois que é deles o reino dos céus. (S. MATEUS, cap. V, vv. 5, 6 e 10.)

2. Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o reino dos céus. - Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados. - Ditosos sois, vós que agora chorais, porque rireis. (S. LUCAS, cap. VI, vv. 20 e 21.)
Mas, ai de vós, ricos que tendes no mundo a vossa consolação. - Ai de vós que estais saciados, porque tereis fome. - Ai de vós que agora rides, porque sereis constrangidos a gemer e a chorar. (S. LUCAS, cap. VI, vv. 24 e 25.)

Justiça das aflições

3. Somente na vida futura podem efetivar-se as compensações que Jesus promete aos aflitos da Terra. Sem a certeza do futuro, estas máximas seriam um contrassenso; mais ainda: seriam um engodo. Mesmo com essa certeza, dificilmente se compreende a conveniência de sofrer para ser feliz. E, dizem, para se ter maior mérito. Mas, então, pergunta-se: por que sofrem uns mais do que outros? Por que nascem uns na miséria e outros na opulência, sem coisa alguma haverem feito que justifique essas posições? Por que uns nada conseguem, ao passo que a outros tudo parece sorrir? Todavia, o que ainda menos se compreende é que os bens e os males sejam tão desigualmente repartidos entre o vício e a virtude; e que os homens virtuosos sofram, ao lado dos maus que prosperam. A fé no futuro pode consolar e infundir paciência, mas não explica essas anomalias, que parecem desmentir a justiça de Deus. Entretanto, desde que admita a existência de Deus, ninguém o pode conceber sem o infinito das perfeições. Ele necessariamente tem todo o poder, toda a justiça, toda a bondade, sem o que não seria Deus. Se é soberanamente bom e justo, não pode agir caprichosamente, nem com parcialidade. Logo, as vicissitudes da vida derivam de uma causa e, pois que Deus é justo, justa há de ser essa causa. Isso o de que cada um deve bem compenetrar-se. Por meio dos ensinos de Jesus, Deus pôs os homens na direção dessa causa, e hoje, julgando-os suficientemente maduros para compreendê-la, lhes revela completamente a aludida causa, por meio do Espiritismo, isto é, pela palavra dos Espíritos.

Causas atuais das aflições

4. De duas espécies são as vicissitudes da vida, ou, se o preferirem, promanam de duas fontes bem diferentes, que importa distinguir. Umas têm sua causa na vida presente; outras, fora desta vida.
Remontando-se à origem dos males terrestres, reconhecer-se-á que muitos são conseqüência natural do caráter e do proceder dos que os suportam.
Quantos homens caem por sua própria culpa! Quantos são vítimas de sua imprevidência, de seu orgulho e de sua ambição!
Quantos se arruínam por falta de ordem, de perseverança, pelo mau proceder, ou por não terem sabido limitar seus desejos!
Quantas uniões desgraçadas, porque resultaram de um cálculo de interesse ou de vaidade e nas quais o coração não tomou parte alguma!
Quantas dissensões e funestas disputas se teriam evitado com um pouco de moderação e menos suscetibilidade!
Quantas doenças e enfermidades decorrem da intemperança e dos excessos de todo gênero!
Quantos pais são infelizes com seus filhos, porque não lhes combateram desde o princípio as más tendências! Por fraqueza, ou indiferença, deixaram que neles se desenvolvessem os germens do orgulho, do egoísmo e da tola vaidade, que produzem a secura do coração; depois, mais tarde, quando colhem o que semearam, admiram-se e se afligem da falta de deferência com que são tratados e da ingratidão deles.
Interroguem friamente suas consciências todos os que são feridos no coração pelas vicissitudes e decepções da vida; remontem passo a passo à origem dos males que os torturam e verifiquem se, as mais das vezes, não poderão dizer:Se eu houvesse feito, ou deixado de fazer tal coisa, não estaria em semelhante condição.
A quem, então, há de o homem responsabilizar por todas essas aflições, senão a si mesmo? O homem, pois, em grande número de casos, é o causador de seus próprios infortúnios; mas, em vez de reconhecê-lo, acha mais simples, menos humilhante para a sua vaidade acusar a sorte, a Providência, a má fortuna, a má estrela, ao passo que a má estrela é apenas a sua incúria.
Os males dessa natureza fornecem, indubitavelmente, um notável contingente ao cômputo das vicissitudes da vida. O homem as evitará quando trabalhar por se melhorar moralmente, tanto quanto intelectualmente.

5. A lei humana atinge certas faltas e as pune. Pode, então, o condenado reconhecer que sofre a conseqüência do quefez. Mas a lei não atinge, nem pode atingir todas as faltas; incide especialmente sobre as que trazem prejuízo à sociedade e não sobre as que só prejudicam os que as cometem. Deus, porém, quer que todas as suas criaturas progridam e, portanto, não deixa impune qualquer desvio do caminho reto. Não há falta alguma, por mais leve que seja, nenhuma infração da sua lei, que não acarrete forçosas e inevitáveis conseqüências, mais ou menos deploráveis. Daí se segue que, nas pequenas coisas, como nas grandes, o homem é sempre punido por aquilo em que pecou. Os sofrimentos que decorrem do pecado são-lhe uma advertência de que procedeu mal. Dão-lhe experiência, fazem-lhe sentir a diferença existente entre o bem e o mal e a necessidade de se melhorar para, de futuro, evitar o que lhe originou uma fonte de amarguras; sem o que, motivo não haveria para que se emendasse. Confiante na impunidade, retardaria seu avanço e, consequentemente, a sua felicidade futura.
Entretanto, a experiência, algumas vezes, chega um pouco tarde: quando a vida já foi desperdiçada e turbada; quando as forças já estão gastas e sem remédio o mal, Põe-se então o homem a dizer: "Se no começo dos meus dias eu soubera o que sei hoje, quantos passos em falso teria evitado! Se houvesse de recomeçar, conduzir-me-ia de outra maneira. No entanto, já não há mais tempo!" Como o obreiro preguiçoso, que diz: "Perdi o meu dia", também ele diz: "Perdi a minha vida". Contudo, assim como para o obreiro o Sol se levanta no dia seguinte, permitindo-lhe neste reparar o tempo perdido, também para o homem, após a noite do túmulo, brilhará o Sol de uma nova vida, em que lhe será possível aproveitar a experiência do passado e suas boas resoluções para o futuro.

Questões para estudo:

1 – Há justiça nas aflições pelas quais passamos?

2 – Fale sobre as causas atuais das aflições.

3 – Extraia do texto acima a frase ou parágrafo que mais gostou e justifique.


Conclusão do Capítulo 19  - Dominação telepática

Por dominação telepática podemos entender a influência obsessiva de um espírito sobre outro, que se insinua na mente da vítima, aproveitando-se da sintonia vibratória mantida entre ambos. O pensamento do obsessor exterioriza-se através do fluido cósmico universal e projeta-se até o alvo a ser atingido, aparecendo a este em forma de imagens e sugestões.
Quando a natureza do pensamento está de conformidade com o bem, direcionado para as Leis da Natureza, o receptor percebe vibrações de harmonia e paz. Forma-se em torno de si uma psicosfera saudável, que lhe traz uma sensação de felicidade. Quando, porém, são dirigidos pensamentos de má natureza, de ódio ou de inveja, por exemplo, as vibrações recebidas podem causar desequilíbrio e depressão, podendo levar a enfermidades.
  
QUESTÕES PROPOSTAS PARA ESTUDO


1) Nós já tivemos visto e considerado a realidade da temática obsessiva em nossas vidas.  Lembramos quais as causas que as geram?
 Sabemos que a obsessão é a influência que um espírito exerce sobre  outro,  agindo  persistentemente  sobre  sua mente e, com isso, criando-lhe dificuldades. Na maioria das vezes, a obsessão é consequência de relações conflituosas do passado entre as partes envolvidas. Pode acontecer, no entanto, que a sua origem esteja em vínculos criados naquela mesma encarnação, como no caso do presente capítulo. De qualquer modo, o processo obsessivo é sempre uma via de mão dupla, que somente se instala mediante o consentimento da vítima, pela sua imperfeição moral,  que  dá  ensejo  à  sintonia com o obsessor, permitindo-lhe a ascendência espiritual sobre si.                                                                                 


2) Invariavelmente temos a predisposição de fazer rogativas a nossos guias espirituais para que nos favoreçam as disposições naqueles momentos. Contudo, que poderão eles fazer?
Os nossos guias espirituais, assim como os benfeitores do Mundo Maior, estão sempre dispostos a nos socorrer, sob variadas maneiras. Sendo assim, poderemos sempre contar com suas influências,  inspirando-nos  e  nos  intuindo, aconselhando-nos, fortalecendo-nos, enfim, fazendo o que está ao seu alcance para nos ajudar a vencer a situação. No entanto, sem a transformação moral do obsediado, todo o esforço do plano espiritual para ajudá-lo resultará inútil.  É indispensável que se feche o canal de sintonia com o obsessor.


3) Muitas vezes, as dificuldades que enfrentamos tem suas raízes em nosso ontem.  Como reconheceremos essa probabilidade?
 É difícil podermos afirmar com precisão se a causa da obsessão está nesta ou em existência pretérita sem que haja uma informação confiável do plano espiritual, geralmente obtida nas mesas de desobsessão. O que podemos dizer é que, como Kardec explica em "O Evangelho segundo o Espiritismo", se as causas das aflições não se encontram na presente         vida, é porque, certamente, encontram-se em vidas passadas.


4) Quais os elementos que delatam a manifestação da influenciação espiritual perturbadora?
 Podemos identificar como indícios da obsessão desde idéias em total desacordo com o pensamento do obsediado,     face à influência moral do obsessor até a perturbação completa de seu organismo físico e das suas faculdades mentais, sem causas aparentes.


5) Quando somos visitados por situações tão molestas, pode a prece ser feita com bons resultados?
 Sem dúvida, como ensina Kardec, qualquer que seja o tipo de obsessão, "a prece é o mais poderoso meio de que se dispõe para demover de seus propósitos maléficos o obsessor."                                                                                           

6) Estabelecida a conexão mental entre os seres afins, ela poderá manifestar-se de variadas formas. Neste caso, o livro nos assinala uma. Não podendo ela ser perceptível com clareza, porque ela toca elementos peculiares de nós, como desvencilhar-se de sua influência?
 R - O instrutor Áulus dá a forma para se romper essa conexão mental entre as partes envolvidas: "A melhor maneira de se extinguir o fogo é recusar-lhe combustível". Enquanto o obsediado alimentar o fogo da obsessão com o combustível do ódio, dos maus sentimentos e do comportamento moral equivocado, não conseguirá se desvencilhar da influência maléfica do obsessor. Não se deve revidar o mal com o mal. Apagar o fogo é praticar o perdão sincero e incondicional, é tratar o obsessor com amor e compreensão e não da forma como Anésia vinha reagindo, com desespero e ódio.


7) Pode a influência obsessiva estender-se ao Grupo Familiar?
a - Como empregar o conhecimento espírita nestes casos?
b - O investimento pode alcançar ainda a parte física dos involucrados?
c - Por que a influenciação se estende aos outros?

R - Num planeta cuja destinação é servir como palco das provas e expiações dos espíritos a ele vinculados, a formação da família é projetada no plano espiritual tendo em vista os ajustes necessários aos espíritos que a comporão.  Assim, são reunidos num mesmo grupo familiar espíritos reciprocamente desafetos em vidas passadas para se reajustarem. No curso da nova existência, as situações que terão de vivenciar vão reavivar sentimentos de antipatia gerados no passado. Como no caso desse capítulo, em que vemos que a união entre Josino e Anésia não foi motivada pelo amor. Tudo indica se tratar de um casamento provacional. Não estando ambos unidos pelo amor verdadeiro, não conseguem, juntos,          enfrentarem o assédio da outra mulher.
 E como esclarece Áulos, "... marido e mulher respiram em regime de influência mútua ... ",  um  sendo  envolvido  pela psicosfera em que o outro se situa. As vibrações envoltas de sentimentos negativos, como ódio, ciúme, desespero e outros podem atingir todo o grupo familiar, por estarem suas mentes associadas em decorrência da vida em comum. Os fluidos negativos que vibram em torno da família podem ocasionar enfermidades físicas e espirituais aos que não saibam praticar o ensinamento do Cristo: "amor aos adversários, auxílio aos que nos perseguem e oração aos que nos caluniam".


8) Podemos esperar ser tocados por semelhante fenômeno?
Qualquer de nós, desde de invigilantes, estaremos sujeitos a passar por idêntica situação. Por isso, devemos estar sempre atentos, vigiando e orando, para não nos deixarmos cair quando em tentação.


9) Por que se faz necessário tomar em conta estas situações?

R - Para que não se permita a sintonia que possibilita a incursão de obsessores. Depois de instalada a obsessão, a sua eliminação se torna difícil e exige muito mais trabalho. Portanto, evitá-la, pelos meios que temos visto, é ainda a melhor solução.


10) Qual o remédio mais eficaz para dissolver uma má influencia?
 Como dissemos acima, Allan Kardec considera, em qualquer tipo de obsessão que esteja se manifestando, a prece é o mais poderoso meio de que se dispõe para demover de seus propósitos maléficos o obsessor.                                                                                             


11) Analisemos a oração:
"Jovino permanece atualmente sob imperiosa dominação telepática, a que se rendeu facilmente, e, considerando-se  que marido e mulher respiram em regime de influência mútua, a atuação que o nosso amigo vem sofrendo envolve Anésia, atingindo-a de modo lastimável, porquanto a pobrezinha não tem sabido imunizar-se,  com os benefícios do  perdão incondicional."

 Como vimos na resposta à questão nº 7, as vibrações negativas podem atingir todos os espíritos que integram o ambiente familiar, pois a união da família não se dá por acaso. Todos têm uma vinculação à  mantê-los  juntos,  são espíritos que têm afinidade. Assim, a possibilidade dos fluidos maléficos que atinge a um vierem a atingir os demais é grande, desde que não saibam como evitá-lo, vigiando e orando.




Capítulo 19  - Dominação telepática

Dispúnhamo-nos à despedida, quando simpática senhora desencarnada abeirou-se de nós, cumprimentando o Assistente com respeitosa afetividade.
Áulus incumbiu-se da apresentação.
- É a irmã Teonília, uma de nossas diligentes companheiras no trabalho assistencial.
A nova amiga correspondeu-nos às saudações com gentileza e explicou ao nosso orientador o objetivo que a trazia.
Contou, então, que Anésia, devotada companheira da instituição em que nos achávamos, sorvia o fel de dura prova.
Além das preocupações naturais com a educação das três filhinhas e com a assistência imprescindível à mãezinha doente, em vésperas de desencarnação, sofria tremenda luta íntima, de vez que Jovino, o esposo, vivia agora sob a estranha fascinação de outra mulher. Esquecera-se, invigilante, das obrigações no santuário doméstico. Parecia, de todo, desinteressado da companheira e das filhas. Como que voltara às estroinices da primeira juventude, qual se nunca houvesse abraçado a missão de pai.
Dia e noite, deixava-se dominar pelos pensamentos da nova mulher que o enlaçara na armadilha de mentirosos encantos.
Em casa, nas atividades da profissão ou na via pública, era ela, sempre ela a senhorear-lhe a mente desprevenida.
Transformara-se o mísero num obsidiado autêntico, sob constante atuação da criatura que lhe anestesiava o senso de responsabilidade para consigo mesmo.
Não poderia Áulus interferir?
Não seria justo afastar semelhante influência, como se extirpa uma chaga com o socorro operatório?
O Assistente ouviu-a com calma e falou, conciso:
- Conheço Anésia e nela estimo admirável irmã. Há meses, não disponho de oportunidade para visitá-la como venho desejando. Decerto, não me negarei ao concurso fraterno, entretanto, não será conveniente estabelecer medidas drásticas sem uma auscultação do caso em si. Sabemos que a obsessão entre desencarnados ou encarnados, sob qualquer prisma em que se mostre, é uma enfermidade mental, reclamando por vezes tratamento de longo curso. Quem sabe se o pobre Jovino não estará na condição de um pássaro hipnotizado, não obstante o corpanzil que lhe confere aparências de robustez no plano físico?
- Do que posso perceber - anotou a interlocutora -, vejo tão-somente um homem comprometido em trabalho digno, ameaçado por perversa mulher...
- Oh! Não! - atalhou o nosso instrutor condescendente -, não a classifique com semelhante adjetivação. Acima de tudo, é imperioso aceita-la por infeliz irmã.
- Sim, sim... concordo - exclamou Teonília, reajustando-se. - De qualquer modo, rogo-lhe a caridosa intercessão. Anésia tem sido uma colaboradora providencial em nossa tarefa. Não me sentiria satisfeita, cruzando os braços...
- Faremos quanto se nos afigure viável no círculo de nossas possibilidades, contudo, é imprescindível analisar o passado para concluir sobre as raízes da ligação indébita a que nos reportamos.
E, imprimindo grave tonalidade à voz, o Assistente enunciou:
- Estará descendo Jovino a impressões do pretérito? Não será uma provação que o nosso amigo terá traçado à própria consciência, com finalidade redentora, e à qual não sabe agora como resistir?
Teonília esboçou um gesto de humildade silenciosa, enquanto Áulus rematava, afagando-lhe os ombros:
- Guardemos otimismo e confiança. Amanhã, à noitinha, conte conosco no lar de Anésia. Sondaremos, de perto, quanto nos caiba fazer.
Nossa amiga, expressou reconhecimento e despediu-se sorrindo.
A sós conosco, durante o regresso ao nosso templo de trabalho e de estudo, áulus salientou a nossa oportunidade de prosseguir observando. O assunto prendia-se naturalmente a problema de influênciação e teríamos ensejo de examinar fenômenos mediúnicos importantes, na esfera vulgar da experiência de muitos.
Com efeito, em momento preestabelecido, reunimo-nos no dia seguinte para a excursão programada.
Atingimos a estação de destino ao anoitecer.
Teonília aguardava-nos no pórtico de domicílio confortável, sem ser luxuoso.
Pequeno roseiral à entrada dizia sem palavras dos belos sentimentos dos moradores.
Guiados por nossa amiga, alcançamos o interior doméstico.
A família entregava-se à refeição.
Uma senhora jovem servia atenciosamente a um cavalheiro maduro e bem-posto, ladeado por três meninas, das quais a mais moça revelava a graça primaveril dos catorze a quinze anos.
Claro que o entendimento da véspera dispensava novas informações. Áulus, no entanto, esclareceu, minucioso:
- Anésia e Jovino acham-se aqui com as filhinhas Marcina, Marta e Márcia.
A palestra familiar desdobrava-se afetuosa, mas o dono da casa parecia contrafeito. Doces apontamentos das meninas não lhe arrancavam o mais leve sorriso. Contudo, enquanto o genitor timbrava em mostrar-se aborrecido, a mãezinha se fazia mais terna e mais contente, incentivando a conversação das duas filhas mais velhas que comentavam episódios humorísticos dos bazar de quinquilharias em que trabalhavam juntas.
Findo o jantar, a senhora dirigiu-se à mais moça e recomendou com carinho:
- Márcia, minha filha, volte à vovó e espere por mim. Nossa doente não deve estar a sós.
A pequena obedeceu de bom grado e, transcorridos alguns instantes, Marcina e Marta demandaram sala próxima, em palestra mais íntima.
Dona Anésia reajustou a copa e a cozinha, operando em silêncio, enquanto o marido se esparramava numa poltrona, devorando os jornais vespertinos.
Reparando, todavia, que o esposo se levantara para sair, endereçou-lhe olhar inquieto e indagou, delicadamente:
- Poderemos, acaso, esperar hoje por você?
- Hoje? Hoje?... - redargüiu o interlocutor sem fixa-la.
E o diálogo prosseguiu, animadamente.
- Sim, um pouco mais tarde; faremos nossas preces em conjunto...
- Preces? Para que isso?
- Sinceramente, Jovino, creio no poder da oração e suponho que nunca precisamos tanto como agora de usá-la em favor de nossa tranquilidade doméstica.
- Não disponho de tempo para lidar com os seus tabus. Tenho compromissos inadiáveis. Estudarei, junto de amigos, excelente negócio.
Nesse instante, contudo, surpreendente imagem de mulher surgiu-lhe à frente dos olhos, qual se fora projetada sobre ele a distância, aparecendo e desaparecendo com intermitências.
Jovino fez-se mais distraído, mais enfadado.
Fitava agora a esposa com indiferença irônica, demonstrando inexcedível dureza espiritual.
Intrigados com o fenômeno sob nossa vista, ouvimos Anésia que, enlaçada por Teonília, dizia quase suplicante:
- Jovino, você não concorda que temos estado mais ausente um do outro, quando precisamos estar mais juntos?
- Ora, ora! Deixe de pieguices! Sua preocupação seria própria, há vinte anos, quando não éramos senão tolos colegiais!
- Não, não é bem isso... Inquietam-me nosso lar e nossas filhas...
- De minha parte, não vejo como torturar-me. Creio que a casa está bem provida e não estou dormindo sobre nossos interesses familiares.  Meus negócios estão em movimento. Preciso de dinheiro e, por essa razão, não posso perder tempo com beatices e petitórios, endereçados a um Deus que, sem dúvida, deve estar muito satisfeito em morar no Céu, sem lembrar-se deste mundo...
Anésia dispunha-se a revidar, no entanto, a atitude do marido era tão flagrantemente escarnecedora que, decerto, julgou mais oportuno silenciar.
O chefe da família, depois de apurar o nó da gravata vivamente colorida, bateu a porta estrepitosamente sobre os próprios passos e retirou-se.
A companheira humilhada caiu em pranto silencioso sobre velha poltrona e começou a pensar, articulando frases sem palavras:
- "Negócios, negócios... Quanta mentira sobre mentira! Uma nova mulher, isso sim!... Mulher sem coração que não nos vê os problemas... Dívidas, trabalhos, canseiras! Nossa casa hipotecada, nossa velhinha a morrer!...
Nossas filhas cedo arremessadas à luta pela própria subsistência!"
Enquanto as reflexões dela se faziam audíveis para nós, irradiando-se na sala estreita, vimos de novo a mesma figura de mulher que surgira à frente de Jovino, aparecendo e reaparecendo ao redor da esposa triste, como que a fustigar-lhe o coração com invisíveis estiletes de angústia, porque Anésia acusava agora indefinível mal-estar.
Não via com os olhos a estranha e indesejável visita, no entanto, assinalava-lhe a presença em forma de incoercível tribulação mental. De inesperado, passou da meditação pacífica a tempestuosos pensamentos.
- "Lembro-me dela, sim - refletia agora em franco desespero - conheço-a! É uma boneca de perversidade... Há muito tempo vem sendo um veículo de perturbação para a nossa casa. Jovino está modificado... Abandona-nos, pouco a pouco. Parece detestar até mesmo a oração... Ah! Que horrível criatura uma adversária qual essa, que se imiscui em nossa existência à maneira da víbora traiçoeira! Se eu pudesse haveria de esmaga-la com os meus pés, mas hoje guardo uma fé religiosa, que me forra o coração contra a violência..."
À medida, porém, que Anésia monologava intimamente em termos de revide, a imagem projetada de longe abeirava-se dela com maior intensidade, como que a corporificar-se no ambiente para infundir-lhe mais amplo mal-estar.
A mulher que empolgava o espírito de Jovino ali surgia agora visivelmente materializada aos nossos olhos.
E as duas, assumindo a posição de francas inimigas, passaram à contenda mental.
Lembranças amargas, palavras duras, recíprocas acusações.
A esposa atormentada passou a sentir desagradáveis sensações orgânicas.
O sangue afluía-lhe com abundância à cabeça, impondo-lhe aflitiva tensão cerebral.
Quanto mais se lhe dilatavam os pensamentos de revolta e amargura, mais se lhe avultava o desequilíbrio físico.
Teonília afagou-a, carinhosa, e informou ao nosso orientador:
- Há muitas semanas diariamente se repete o conflito. Temo pela saúde de nossa companheira.
Áulus deu-se pressa em aplicar-lhe recursos magnéticos de alívio e, desde então, as manifestações estranhas diminuíram até completa cessação.
Efetivado o reajustamento relativo de Anésia e percebendo-nos a curiosidade, o Assistente esclareceu:
- Jovino permanece atualmente sob imperiosa dominação telepática, a que se rendeu facilmente, e, considerando-se que marido e mulher respiram em regime de influência mútua, a atuação que o nosso amigo vem sofrendo envolve Anésia, atingindo-a de modo lastimável, porquanto a pobrezinha não tem sabido imunizar-se, com os benefícios do perdão incondicional.
Hilário, intrigado, perguntou:
- Examinamos, porém, um fenômeno comum?
- Intensamente generalizado. É a influenciação de almas encarnadas entre si que, às vezes alcança o clima de perigosa obsessão. Milhões de lares podem ser comparados a trincheiras de luta, em que pensamentos guerreiam pensamentos, assumindo as mais diversas formas de angústias e repulsão.
- E poderíamos enquadrar o assunto nos domínios da mediunidade?
- Perfeitamente, cabendo-nos acrescentar ainda que o fenômeno pertence à sintonia. Muitos processos de alienação mental guardam nele as origens.
Muitas vezes, dentro do mesmo lar, da mesma família ou da mesma instituição, adversários ferrenhos do passado se reencontram. Chamados pela Esfera Superior ao reajuste, raramente conseguem superar a aversão de que se veem possuídos, uns à frente dos outros, e alimentam com paixão, no imo de si mesmos, os raios tóxicos da antipatia que, concentrados, se transformam em venenos magnéticos, suscetíveis de provocar a enfermidade e a morte. Para isso, não será necessário que a perseguição recíproca se expresse em contendas visíveis. Bastam as vibrações silenciosas de crueldade e despeito, ódio e ciúme, violência e desespero, as quais, alimentadas, de parte a parte, constituem corrosivos destruidores.
Finda ligeira pausa, o Assistente continuou:
- O pensamento exterioriza-se e projeta-se, formando imagens e sugestões que arremessa sobre os objetivos que se propõe atingir. Quando benigno e edificante, ajusta-se às Leis que nos regem, criando harmonia e felicidade, todavia, quando desequilibrado e deprimente, estabelece aflição e ruína. A química mental vive na base de todas as transformações, porque realmente evoluímos em profunda comunhão telepática com todos aqueles encarnados ou desencarnados que se afinam conosco.
- E como solucionar o problema da antipatia contra nós? - indagou meu companheiro com interesse.
Áulus sorriu e respondeu:
- A melhor maneira de extinguir o foco é recusar-lhe combustível. A fraternidade operante será sempre o remédio eficaz, ante as perturbações dessa natureza. Por isso mesmo, o Cristo aconselhava-nos o amor aos adversários, o auxílio aos que nos perseguem e a oração pelos que nos caluniam, como atitude indispensável à garantia de nossa paz e de nossa vitória.
Nesse instante, porém, Anésia consultara o relógio e reerguera-se.
Vinte horas.
Era o momento preciso de suas preces junto da mãezinha doente, e acompanhamo-la, atenciosos, a fim de igualmente orarmos.

Questões para reflexão

(1) Nós já tivemos visto e considerado a realidade da temática obsessiva em nossas vidas. Lembramos quais as causas que as geram?

(2) Invariavelmente temos a predisposição de fazer rogativas a nossos guias espirituais para que nos favoreçam as disposições naqueles momentos. Contudo, que poderão eles fazer?

(3) Muitas vezes, as dificuldades que enfrentamos têm suas raízes em nosso ontem. Como reconheceremos essas probabilidades?

(4) Quais os elementos que delatam a manifestação da influenciação espiritual perturbadora?

(5) Quando somos visitados por situações tão molestas, pode a prece ser feita com bons resultados?

(6) Estabelecida a conexão mental entre os seres afins, ela poderá manifestar-se de variadas formas. Neste caso o livro nos assinala uma. Não pudendo ela ser perceptível com clareza porque ela toca elementos peculiares de nós, como desvencilhar-se de sua influência?

(7) Pode a influência obsessiva estender-se ao Grupo Familiar?
a - Como empregar o conhecimento espírita em estes casos?

b - O investimento pode alcançar ainda a parte física dos involucrados?

c - Por que a influenciação se estende a os outros?

(8) Podemos esperar ser tocados por semelhante fenômeno?

(9) Por que se faz necessário tomar em conta estas situações?

(10) Qual o remédio mais eficaz para dissolver uma má influencia?

(11) Analisemos a oração:

"Jovino permanece atualmente sob imperiosa dominação telepática, a que se rendeu facilmente, e, considerando-se que marido e mulher respiram em regime de influência mútua, a atuação que o nosso amigo vem sofrendo envolve Anésia, atingindo-a de modo lastimável, porquanto a pobrezinha não tem sabido imunizar-se,  com os benefícios do perdão incondicional."